A Culpa é das Estrelas

Por Caroline Nishi

“Sempre que você lê um folheto, uma página da internet ou sei lá o que mais sobre o câncer, a depressão aparece na lista dos efeitos colaterais. Só que, na verdade, ela não é efeito colateral do câncer. É um efeito colateral de se estar morrendo.”

Hazel Grace tem 16 anos e é uma paciente terminal, embora seu tumor não tenha diminuído e seja considerada um milagre da ciência, o último capítulo da sua vida foi escrito no diagnóstico quando ainda era uma menina. Todos acham que Hazel é uma guerreira por lutar tão bravamente contra o câncer e nunca desistir, bom, pelo menos é isso o que vivem dizendo e ela não sabe se é para enganá-la ou se é um modo de elas camuflarem a sua triste realidade. Mas Hazel conhece um lado que elas não conhecem, elas não sabem como é viver sabendo que te resta pouco tempo, de ter a percepção de que você não vai ser aquele adulto que pensou que seria e viver tudo que pensou que viveria.

Hazel não tem uma vida normal, ela terminou os estudos em casa, não possui muitos amigos, vida social ou namorado e por causa do seu estado de espírito meio depressivo seu médico recomenda que ela frequente um grupo de apoio a crianças com câncer, o que ela faz de má vontade. O objetivo do grupo é compartilhar histórias, experiências, lágrimas e humor negro (esse último é um bônus de Hazel Grace), na maioria das vezes Hazel está presente apenas de corpo, esses são aqueles momentos em que é fácil desligar a mente e divagar por caminhos menos tortuosos da imaginação. Em um desses encontros ela conhece Augustus Waters, um cara bonitão, tão bonito que poderia ser o garoto mais popular da escola – muito provavelmente capitão do time de basquete, mas algo em sua essência o torna peculiar, foge do arquétipo de atleta mais popular da escola, ele possui um charme irresistível, um humor ácido e sarcástico que nem ele próprio escapa.

De um jeito inusitado como se fosse orquestrado pelas estrelas, Hazel Grace e Augustus possuem uma sintonia, uma química difícil de resistir, ambos possuem o mesmo tipo de humor irônico depreciativo e um estilo de diálogo muito sagaz. E com a mesma certeza de que o sol nasce a cada manhã eles se apaixonam, e com eles você vai rir, torcer, chorar, sofrer e no final valerá cada palavra lida, casa página virada, cada riso dado e lágrima derramada.

E com eles talvez você compreenda o valor de cada minuto, cada dia da sua vida, aprenda a dar valor ao que realmente importa, aprenda a amar verdadeiramente sem medo de se machucar, porque mesmo sabendo como será o fim você ainda poderá viver um pequeno, doce e surpreendente infinito.

Gosto de histórias como esta, elas são reais e sem garantias de finais felizes, a vida não é um conto de fadas e nunca será. Histórias como esta tiram as vendas dos nossos olhos, nos fazem enxergar o verdadeiro valor de se estar vivo, de cada suspiro, de amar sem medo, de rir de nós mesmos e dos outros e saber que infelizmente coisas ruins acontecem com pessoas boas, mas não precisamos ser vítima das circunstâncias, sem fatalismo ou sentimentalismo, precisamos apenas aprender a lidar com aquilo que nos foi dado e saiba aproveitar os pequenos infinitos que a vida pode proporcionar.

John Green foi fantástico, soube retratar a morte sem muito sentimentalismo, sem muito drama e de uma maneira muito leve e bem humorada. É mais ou menos o que o diretor Gus Van Sant fez no filme Inquietos (que indico). John Green demorou 10 anos para escrever este livro, ele estava esperando o momento certo para escrever a história certa e a inspiração veio através de Esther Earl, uma garotinha de 16 anos que de muitas formas se parece com Hazel Grace, com tumor nos pulmões e ligada a tubos de oxigênio para respirar, Esther encarava as dificuldades com muita doçura e bom humor, mas infelizmente a doença abreviou seus dias e em 2010 ela perdeu a luta contra o câncer. E desde então, todo dia 03 de agosto é comemorado o Esther Day, essa data não consta no calendário mas é uma homenagem de familiares e amigos para aquela garotinha que inspirou milhares de pessoas de tantas maneiras diferentes e tudo o que ela precisava era um pouco mais de tempo.

Certa vez perguntaram para John Green o significado do título do livro e é com a sua resposta que eu termino a resenha:
“Bem, na frase de Shakespeare, “estrelas” significam “destino”. No texto original, o nobre Cássio diz a Bruto: “A culpa, meu caro Bruto, não é de nossas estrelas / mas de nós mesmo, que consentimos em ser inferiores.” ou seja, não há nada de errado com o destino; o problema somos nós.
Bem, isso é válido quando estamos falando de Bruto e Cássio. Mas não quando estamos falando de outras pessoas. Muitas delas sofrem desnecessariamente, não porque fizeram algo de errado nem porque são más ou sei lá o que, mas porque dão azar. Na verdade, as estrelas têm culpa sim, e eu quis escrever um livro sobre como vivemos num mundo que não é justo, e sobre ser ou não possível viver uma vida plena e significativa mesmo que não se chegue a vivê-la num grande palco como Cássio e Bruto.”.