Quem inventou o amor?

Por Caroline Nishi

“Quem inventou o amor? Me explica por favor…” assim cantou Renato Russo, grande músico e sábio poeta. Mas antes de perguntar quem o inventou vamos questionar, o que é o amor?
Segundo o dicionário, amor é um sentimento que induz a aproximar, a proteger ou a conservar a pessoa pela qual se sente afeição ou atração, grande afeição ou afinidade forte, é um sentimento intenso de atração entre duas pessoas. Mas o significado de uma palavra no dicionário e a sua aplicação na vida real são coisas distintas e assim como tudo o que aprendemos na vida, nem toda base teórica pode ser colocada em prática, principalmente quando lidamos com um fator tão mudano e único como o ser humano.

O amor pode ser facilmente confundido com outros sentimentos como posse, obsessão e dependência afetiva, é impressionante nossa capacidade de confundir sentimentos tão mesquinhos com algo tão belo como – deveria ser – o amor. Amamos pelas razões erradas e consequentemente sofremos por nossa ignorância. É comum ouvir pessoas dizendo que sofrem por amor, mas que amor é esse que faz você sofrer, chorar, que te faz pequeno e te prende com correntes?

Que tipo de amor é esse que te faz inseguro mesmo você sabendo exatamente quem é e onde quer chegar?

Amar não é sofrer, amar é amar, é querer a felicidade do ser amado, sendo ele o único que não pode ser prejudicado. É estranho ouvir pessoas dizendo que matou por amor porque isso soa mais como egoísmo do que qualquer outra coisa, é bizarro e medonho as pessoas ainda confundirem dois sentimentos tão opostos.

Quando se mata não é por amor é por egoísmo, quando se prende não é por amor é por medo de que a vida aconteça, quando se sofre constata-se que aquilo que sentia não era realmente amor, pois o amor te faz renascer e crescer. Quando se ama se dá asas nunca as corta, você regozija-se dele.

Certa vez, li o fragmento de um texto de Antoine de Saint-Exúpery que dizia o seguinte:
“Não confundas o amor com o delírio de posse, que acarreta os piores sofrimentos. Porque, contrariamente, à opinião comum, o amor não faz sofrer. O instinto de propriedade, que é contrário ao amor, é que faz sofrer. […]
Eu sei reconhecer aquele que ama verdadeiramente: é aquele que não pode ser prejudicado. O amor verdadeiro começa lá onde não se espera mais nada em troca.”

Espera-se muito do amor, cria-se muitas expectativas quando na verdade o que precisamos é refletir se é isso mesmo que sentimos. Esse amor que você dá é aquele que você quer receber?

Colocamos o amor num pedestal tão alto que está difícil alcançá-lo, um sentimento tão puro e simples foi transformado em algo inalcançável, um conto de fadas, o amor só é amor se é perfeito, se tem rosas vermelhas, músicas românticas, jantares a luz de velas e muito romance shakesperiano. Me desculpe se acabei com a sua ilusão, mas o amor não pode ser perfeito porque ele habita pessoas imperfeitas, certa vez escrevi que somos pessoas imperfeitas em busca de pessoas perfeitas, seres completos buscando metades que não existem e continuo a persistir neste raciocínio. Tornou-se algo tangível, mede-se o amor pelos valores dos presentes que se ganha e não pelos beijos de tirar o fôlego, mede-se pelos restaurantes que frequentam e não pelas carícias trocadas embaixo do cobertor num dia frio.

Espero que não demore muito para percebermos que o amor reside nos gestos mais simples da pessoa amada e, ironicamente, termino este artigo com um poema de William Shakespeare:

“De almas sinceras a união sincera
Nada há que impeça: amor não é amor
Se quando encontra obstáculos se altera,
Ou se vacila ao mínimo temor.
Amor é um marco eterno, dominante,
Que encara a tempestade com bravura;
É astro que norteia a vela errante,
Cujo valor se ignora, lá na altura.
Amor não teme o tempo, muito embora
Seu alfange não poupe a mocidade;
Amor não se transforma de hora em hora,
Antes se afirma para a eternidade.
Se isso é falso, e que é falso alguém provou,
Eu não sou poeta, e ninguém nunca amou.”

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